IDÉIAS
 
 

O Planeta Dos Desvalidos De Babenco



Retrospectiva promovida pelo CCBB promove debates e traz todos os longas-metragens do diretor argentino naturalizado brasileiro que ganhou notoriedade internacional com o premiadíssimo Pixote

Sérgio Moriconi

De certa maneira um outsider no contexto do cinema brasileiro, Hector Babenco soube construir uma obra que tem muito a ver conosco mas que também assume características híbridas (no sentido de diluir um caráter nacional muito forte) e universais. No seu caso, há uma certa ironia nisso. Foi o sucesso de Pixote, obra que retrata as desventuras de um menino de rua brasileiro, que lhe abriu as portas para uma relativamente bem sucedida carreira internacional. Pixote seria consagrado pela crítica norte-americana e européia e acabaria criando não só uma imagem comovente e trágica do Brasil como também do cinema brasileiro de um modo geral. Produzido em 1981, Pixote, ao lado de Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto, lançado três anos antes, em 78, ajudaria a enterrar de vez a chamada “estética da fome” do cinema novo.
Pixote e Dona Flor eram filmes narrados dentro dos cânones da narrativa clássica, esse era o segredo do franco diálogo que estabeleceram com o público brasileiro no período final de consolidação da Embrafilme. Embora tenha começado a fazer longas justamente quando a empresa começava a dar seus primeiros passos, lançando as bases para um cinema estatal de moldes industriais, Babenco sempre manteve uma postura independente. Filmes como Pixote e o anterior Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia (1977), adaptação da obra de José Louzeiro, retrato do famoso “bandido de olhos verdes” que denuncia a promiscuidade entre bandidos e policiais e ainda a existência do Esquadrão da Morte contavam apenas com uma co-produção da Embrafilme. Isso não deixava de ser conveniente.
Visto com desconfiança pelo governo militar, Babenco igualmente não contava com a simpatia da maioria dos velhos militantes do cinema novo. E por um motivo muito simples: apesar dos temas incisivos e corajosos, o diretor era um conservador na forma. Para piorar a situação, este filho de um alfaiate judeu e de uma judia polonesa estabelecidos na cidade argentina de Mar De Plata não tinha papas na língua e lá pelas tantas resolve dizer que o fato de fazer filmes “num país subdesenvolvido não o obrigava a retratar a indigência com recursos técnicos indigentes”. A esquerda cinematográfica inteira lhe torceu o nariz, esquecendo-se de que, nos anos 70, com exceção de uns poucos que abraçaram a proposta do cinema marginal, tinham todos embarcado na canoa do projeto estatal de cinema dos militares.
Forma clássica, apuro artesanal, dramaturgia teatralizada, ótima direção de atores, essas foram as armas de Hector Babenco em sua primeira aventura internacional. Co-produção norte-americana, falado em inglês mas com personagens de nomes hispânicos, filmado em São Paulo com uma equipe brasileira, O Beijo da Mulher Aranha, baseado numa peça teatral de Manuel Puig, tinha um elenco combinado de astros brasileiros (Sônia Braga, Milton Gonçalves, José Lewgoy) e estrangeiros (William Hurt, Raul Julia). A despeito de tanto hibridismo, O Beijo da Mulher Aranha não naufragou. Foi inclusive considerado um dos grande filmes do ano pela crítica estrangeira, possibilitando a William Hurt um Oscar de Melhor Ator e igual laurel no Festival de Cannes. Segunda produção estrangeira de Babenco, Ironweed, estrelado por Jack Nicholson e Meryl Streep, história de um casal de mendigos norte-americanos, confirmou a atração do diretor pelos deserdados sociais. Depois viriam duas produções de peso, Brincando Nos Campos do Senhor e o auto-biográfico Coração Iluminado. Carandiru, baseado no livro de Drauzio Varela, última obra de Babenco, realizada depois do diretor ter vencido um câncer linfático, reafirma a vocação humanista de um diretor sempre disposto a descobrir humanidade entre párias e deserdados da sorte.
Hector Babenco: Um Olhar Poético Sobre a Marginalidade (inclui filmes que dialogam com a obra de Babenco); de 2 a 14 de novembro; Local: Centro Cultural Banco do Brasil; Filmes: O Fabuloso Fittipaldi; O Rei da Noite; Eu Matei Lúcio Flávio; Lúcio Flávio - O Passageiro da Agonia; Quem Matou Pixote?; Pixote; Beijo da Mulher Aranha; Ironweed; Programa Roda Viva; Brincando Nos Campos do Senhor; Coração Iluminado; Por Dentro de Carandiru; Carandiru.