Nascido na Paraíba e instalado
em Brasília há 23 anos, o cineasta Vladimir Carvalho
é um dos grandes nomes do cinema nacional. Aqui ele fala
sobre sua paixão pela arte e o fascínio que tem pela
capital federal
Vladimir Carvalho assistiu e documentou
com sua câmera eventos tocantes do país. Vive em Brasília
há mais de 30 anos. Há quem diga que Vladimir está
para a não-ficção como Glauber Rocha está
para a ficção. Há uma explicação
temporal para o fato. Vladimir expôs seu talento nos lugares
certos e na hora certa. Em 1960, participou como roteirista e assistente
de direção da equipe do clássico Aruanda, de
Linduarte Noronha. O filme tornou-se marco do cinema social brasileiro
que teve uma forte influência na germinação
do Cinema Novo. "Vladimir é documentarista e ponto final.
Não faz concessões", diz José Carlos Coutinho,
arquiteto e professor da UnB. "Para ele, essa forma de cinema
real, é um ideal, uma causa, quase um credo".
Reconhecido internacionalmente desde o seu primeiro filme como diretor,
(Romeiros da Guia, de 62 - menção honrosa do Festival
de Sestri Levante, na Itália), Vladimir se transformaria
num ícone ao realizar, entre 67 e 71, O País de São
Saruê, épico lírico sobre os desvalidos da seca
da região sertaneja do Rio do Peixe (fronteira entre Paraíba,
Pernambuco e Ceará), obra sublime que ficaria quase uma década
proibida pelo regime militar.
Depois, em 1970, Vladimir se instalaria em Brasília. E aí,
imaginem que nos fosse dada a dádiva de ver testemunhada
a construção das pirâmides do Egito. Mais: que
este felizardo tivesse uma filmadora na mão e o talento de
Vladimir. Sim, porque Brasília (primeira obra da arquitetura
e urbanismo modernos a ser reconhecida e tombada pela UNESCO), guardadas
as devidas proporções, teve o privilégio de
ter a sua saga magnificamente testemunhada e retratada - a partir
do ponto de vista daqueles que a construíram, os candangos,
e também de seus artífices - no magnífico Conterrâneos
Velhos de Guerra.
Nascido em Itabaiana, na Paraíba, e irmão do celebrado
fotógrafo Walter Carvalho (premiado, entre muitos trabalhos,
pelo filme Lavoura Arcaica), Vladimir teria seu nome indelevelmente
identificado com a cidade que aprendeu a amar, ao receber, em 98,
o título de Cidadão Honorário de Brasília,
concedido pela Câmara Legislativa do DF. Embora avesso à
badalação, Vladimir é capaz de gestos surpreendentes
como o delicioso "anti-marketing" que usou nos lançamentos
dos longas O Homem de Areia e Conterrâneos Velhos de Guerra.
Usando cartazes de ambulante, fechou o trânsito nas cercanias
da Rodoviária, ostentando os dizeres provocativos "Esse
filme não ganhou o Oscar". O ilustrador e desenhista
Jô Oliveira, acredita que essa atitude de Vladimir tem tudo
a ver:
Com o prestígio consolidado, Vladimir, nosso cineasta antes
de tudo romântico, usaria recursos próprios para transformar
a sua casa na Fundação Cinememória, uma espécie
de museu com fotos, equipamentos e documentos que retratam a história
do cinema na capital. Isso não significa um ato de aposentadoria,
ao contrário, segue produtivo como sempre. Seu último
projeto, já em fase final, é um longa-metragem sobre
o escritor paraibano José Lins do Rego, que segundo ele próprio,
é uma de suas grandes influências. O filme deve se
chamar O Engenho de Zé Lins, jogo de palavras em que engenho
significa fábrica (de açúcar) e também
engenhosidade. Engenho é o que não falta a este inquieto
e apaixonado cineasta
Bate-bola com Vladimir Carvalho
O Nordeste
"Penso que o Nordeste é marca indelével em qualquer
de seus filhos, mesmo o mais desnaturado. É como disse o
príncipe de Lampedusa, em O Leopardo (romance do escritor
italiano Tomasi di Lampedusa)"quem sai de sua terra natal depois
dos vinte anos, jamais a deixará". Eu nasci no "piemonte"
paraibano, no ponto onde a caatinga litorânea começa
a se elevar para subir as fraldas da Chapada da Borborema para chegar
em Campina Grande. A cidade chama-se Itabaiana e, segundo dizem,
foi antigo cemitério de índios no tempo do descobrimento.
Daí o nome, que significa "pedra que gira", quer
dizer, a pedra da urna funerária onde se enterravam os mortos.
Foi célebre centro boiadeiro à margem da ferrovia
dos ingleses, a Great Western Railway, e teve seus dias de glória
com bondes puxados a burro, teatro, cinema e jornal, sem falar os
afamados carnaval e uma conhecidíssima zona de mulheres freqüentada
por vaqueiros e tangerinos que desciam do sertão conduzindo
as boiadas. Fui contagiado por essa civilização para
sempre".
O cinema
"Decidi-me pelo cinema por via do documentário e de
uma maneira quase mágica. Como toda minha geração,
era apaixonado pelo cinema. Via três, quatro filmes por semana.
Mas, há uns quarenta anos atrás, apareceu no Recife
um crítico carioca, Jonald (assinava só o primeiro
nome), trazendo uma coleção de filmes antológicos,
como os clássicos franceses de Marcel Carné, René
Clair, os russos, como Eisenstein, os italianos e alguns documentários.
No meio desses, vinha um longa-metragem, O Homem de Aran, de Robert
Flaherty (documentarista inglês), para mim, até ali,
absolutamente desconhecido. Fiquei chapado. Descobria de uma hora
para outra que, além da ficção, do sistema
de estrelas hollywoodiano, existia outra dimensão que era
a relação direta do cinema com a própria realidade".
Cinema documentário
"Para mim, o documentário é a possibilidade de
ver o homem e o mundo sem intermediários. O que chamamos
de real ou realidade é algo muito difuso e complexo, mas,
com sensibilidade, dá para flagrá-lo em seus momentos
mais críticos e contraditórios. Basta olhar a vida
cotidiana, os dramas do dia a dia, as tensões, as guerras.
O velho John Grierson (documentarista inglês) não estava
errado ao afirmar que o documentário é o tratamento
criativo da realidade".
Brasília
"Vim para Brasília por obra e graça de um ardil
habilmente armado por meu companheiro Fernando Duarte, fotógrafo
da primeira fase de Cabra Marcado Pra Morrer, do Eduardo Coutinho.
Fernando dirigia o setor de cinema da UnB e me convidou para montar
com ele um núcleo de produção de documentários
do Centro-Oeste. Não só Brasília, mas todo
o Centro-Oeste, que considero um "sertão molhado",
com seus rios e cachoeiras me fascinaram. Acabei elegendo a região
como a motivação quase que exclusiva do meu trabalho
como documentarista. Com o tempo, também desenvolvi uma idéia
muito própria sobre a natureza da atividade cinematográfica
aqui. Como Brasília, ao contrário do Rio e São
Paulo, não tem uma indústria nem um comércio
marcantes, também não é um centro financeiro
com características a propiciar o surgimento de empresas
cinematográficas clássicas, apresenta, por outro lado,
características ideais para a produção de um
cinema de cunho não-ficcional".
As influências
"A maior e mais contagiante de todas e também a mais
terna e carinhosa foi a de meu pai, Luis Martins de Carvalho, o
Lula. Artista até a raiz dos cabelos, escultor, designer,
arquiteto sem diploma, mecânico e escritor, com uma memória
prodigiosa e uma narrativa oral fascinante. Exerceu sobre mim um
total fascínio, quase uma hipnose. Meu pai tinha uma coisa
genial. Era do tipo que quando lhe faltava a memória dos
fatos mentia saborosamente, inventando e suprindo lacunas. Infelizmente
morreu muito jovem, ainda aos 39 anos. Vejo-o redivivo na figura
de meu irmão Walter Carvalho (diretor de fotografia), que
herdou dele quase tudo, do talento extraordinário ao temperamento
inquieto e empreendedor. As outras influências diretas ligadas
ao cinema foram, como já disse, Robert Flaherty e, muito
depois, Joris Ivens, que conheci no Chile, em 1969, e que, ao assistir
meu curta A Bolandeira, teve várias frases da maior gentileza
sobre o que chamou de "olho extraordinário para a faina
humana".
Influências brasileiras
"O meu trabalho com Arnaldo Jabor, Eduardo Coutinho e Geraldo
Sarno foram muito importantes. Especialmente Jabor, que me fez perder
o medo de filmar, embora já tivesse realizado meu primeiro
filme, Romeiros da Guia. Ele filma sem tensões, da forma
mais natural e descontraída.
O cinema em Brasília
"A produção local - com suas associações
de classe, seu pólo de cinema, mostras e cursos - nasceu
dos primórdios da UnB, uma espécie de nave-mãe
da atividade em Brasília. O primeiro curso regular de cinema
no Brasil surgiu da "loucura" de Darcy Ribeiro e Pompeu
de Souza que, por sua vez, deu origem ao atual Festival de Brasília.
Para quem não sabe, Brasília é hoje o quarto
pólo produtor do país, perdendo só para o Rio
Grande do Sul. Os jovens diretores daqui têm desenvolvido
um estilo de cinema que muito se parece com a mística brasiliense,
um certo olhar que inclui uma visão panorâmica do país,
um humor e um sotaque próprios, um amálgama de vozes
que não se ouve em nenhuma parte do Brasil, enfim, um jeito
de ser".